Nem tirando toda a remela dos olhos, toda a cera do ouvido, a baba da boca, a coriza do nariz e o suor do corpo eu me sentia limpa das magoas que carregava. Magoas essas que não eram minhas, e nem suas, eram nossas, de uma vida desgraçada que levamos juntos por tempo o suficiente para se tornar uma ferida. Ferida essa que arde sempre que cutuco. E eu adoro cutuca - lá. Adoro mexer nos meus sofrimentos e magoas, revira-los de cabeça para baixo e ressenti-los. Sim eu gosto de sofrer. Não por opção, mas porque esse foi o único sentimento que restou no meu coração depois de tantos anos com aquele homem que eu via como príncipe e no fim ele não era sapo, ele era uma cobra. Que me abocanhou e ainda está digerindo tudo o que eu tenho, e é incrível como ele adia a digestão da minha dor. E é incrível como eu ajudo essa cobra a me digerir. Eu faço pedaços de mim para que ela consiga me eliminar mais rápido e para que meu fim seja mais próximo. Porque por mais que eu goste de sofrer, eu sinto que ela sofre para me digerir, e eu nunca desejei mal a ela, só também não quis que ela fosse feliz já que eu também não era. Tomara que ela consiga me eliminar logo. Estou cansada de cutucar a minha ferida. Sim, eu adoro fazer isso, cutucar a ferida. Mas quando eu mexo na mágoa eu mexo na cobra e então ela se lembra do que vivemos e por alguns instantes ela me digere mais rápido.

Um comentário:
Você escreve muuuuito bem! parabéns, adorei o post, vou procurar mais textos seus aqui, parabéns!
Ótimo mesmo!
Pc Guimarães
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