sábado, 1 de janeiro de 2011

Cansada

            Odeio quando ele me chama de mulher. Parece que eu só sirvo para lavar as roupas e ser a escrava sexual dele. Me recuso a responder aquela voz arrogante que ele usa quando está em frente a TV vadiando e me chama como se eu fosse sua empregada que deve obedecer, pois aquilo não é mais do que a minha obrigação. Não, aquilo não é minha obrigação. Ele tem duas pernas e dois braços e pode se virar sozinho, e então ele que levante e faça o que ele quer, pois eu, eu estou cansada de abaixar a cabeça e ainda ser obrigada a agradecer ao que eu repudio. Cansei de só servir.
            Então agora eu faço as minhas malas e repito para mim mesma que a partir de hoje homem nenhum manda na minha vida. Eu não pertenço a ninguém. Não a dinheiro ou casamento que compre um ser humano e o faça seu. Não me interessa se ele não me deixa sair, ele não tem que deixar. Se nem meu pai mandou em mim, ele é que ao vai mandar. Estou esgotada de ser usada, abusada e usurpada por alguém que não me dá nada em troca. Cansei de falsidade. Nessas de ficar aguentando um falso amor eu perdi até a minha vaidade, e talvez por isso ele tenha me transformado em um objeto que ele julga inútil, mas eu garanto que irá sentir falta. Quando ainda ele me achava bonita eu era sua “escrava Isaura”, era como se eu tivesse recompensas por me manter bonita e assim ele podia me mostrar como um troféu para os amigos do futebol e da empresa. Mas depois de dois filhos e de muito ouvir “Mulher, me traz isso, me traz aquilo...” eu fui ficando aborrecida, envelhecida, fadigada e puta com a vida.
            Mas hoje eu estou saindo dessa, e ele não sabe disso. E eu quero rir a hora que ele não me encontrar aqui. As crianças eu vou levar comigo. Elas não merecem ser servas de um homem rude qual elas nem podem desobedecer, pois pela lei ele é responsável por elas. Ou melhor, Irresponsável. Dinheiro, eu emprestei, aluguei um apartamento bem longe dessa casa e só tem lá dois colchões e uma geladeira, mas eu me viro. Começo a trabalhar na semana que vem, afinal sou mestranda em história da arte, mas o desgraçado nunca me deixou trabalhar. E agora sim eu vou ser mulher. Mulher de verdade, que não se deixa abater, eu vou agora é colocar a cara pra bater, e aquele idiota quero ver o quão homem ele é sem uma Mulher ao lado dele.

Um comentário:

disse...

A realidade de muitas mulheres...Acredito que não entraremos nesse meio né?!..rsrs...Realmente, seu texto está muito bem estruturado e, como sempre, impecável!! Parabéns minha flor!!